Prazer, eu sou o seu Coach reverso!
Quero que você seja preguiçoso. Nada mais do que isso.
Estou de férias. Tirei 15 dias para curtir o carnaval e descansar. E agora, de volta para casa, depois de dias de festa, me pego sem nada para fazer, sem e-mail para verificar, sem tarefas para preencher e CARALHOW, era só isso que eu precisava.
Você não faz ideia, mas eu não lembro da última vez que realmente não fiz nada. Minhas últimas férias foram para realizar uma mudança. Ou seja, nada de descanso ali. Isso já faz mais de um ano. E era sempre assim. Eu tirava férias para organizar o que não conseguia fazer durante a semana, ou para pegar mais trabalho e preencher a planilha de gastos, ou para viajar e conseguir dizer que vivi, mesmo cansado.
E agora, eu, nos meus 37 anos, aprendo o valor do descanso. Que maluquice escrever isso em voz alta (risos). Mas, sério, é loucura para mim, por ser algo completamente novo, simplesmente dormir a tarde toda. O não fazer nada é novidade e tem sido um grande prazer desfrutar disso.
Talvez isso possa ser um hobby. Vou listar, sim, como um hobby. O meu mais novo hobby é não fazer nada. Dormir sem despertador. Passar o domingo cochilando e acordando para comer e ver série.
Um hobby em que meu corpo repousa e se torna inerte. Em que eu não quero saber de celular e o modo avião é ativado. Em que eu não quero preencher nenhuma lista de afazeres. Em que eu não farei nenhuma atividade física. Não sairei de casa para nada. Dias em que posso, sim, com todo prazer, me dar o luxo de simplesmente existir e curtir meu tempo livre.
“Percebi que, na verdade, não quero uma vida ‘melhor’, apenas uma vida mais tranquila. Só quero uma vida que eu sinta que é minha, com dias mais leves e que não me esgotem, sem pessoas chatas com quem eu não precise lidar, noites em que eu possa ficar em silêncio sem sentir que estou perdendo tempo. Talvez isso soe preguiçoso, mas acho que é apenas sincero.” – Alana, Colecionando Sonhos
Eu não quero mais a cobrança de sempre preencher o espaço vazio com alguém ou com alguma obrigação. Quero, como disse Alana acima, só que nas minhas palavras: “Quero soar preguiçoso, sim! Quero me entregar à preguiça de ter uma vida melhor, mais tranquila.”
Quero, como disse a uma amiga esta semana: “Antes de voltar a correr, eu só quero me encontrar primeiro. Faz sentido? Quero saber por que eu estou correndo e não pensar nisso depois que eu estiver parado, transpirando, esgotado…”
Abrindo um parêntese, já que adentrei aqui nos limites e no quanto só os percebemos depois que os ultrapassamos, para indicar um podcast. Escute.
No episódio, elas falam algo que me pegou demais: “Eu achava que o meu limite estava onde eu não dava mais conta de fazer. Cheguei ao limite e, a partir de agora, não vou mais continuar fazendo… Mas, conversando com minha terapeuta, eu descobri que isso é passar do meu limite. É, por exemplo, ter um burnout e perceber só ali que o limite foi ultrapassado.”
Eu não quero mais descobrir meu limite pelo cansaço. Quero aprender a reconhecê-lo antes de cair no buraco da exaustão.
Quero correr pelo prazer e não por uma pressão que nem eu sei explicar quem colocou em mim. Eu mesmo? A sociedade? As cobranças são minhas, dos meus pais, dos meus avós? Meus desejos são de quem? Quem deve buscar o sonho? Eu? Então que eu descubra a porra do sonho que quero ter e a forma como devo realizá-lo.
O que eu conquistei com a exaustão? Quais memórias eu tenho desses momentos em que eu apenas seguia as regras, mas não ditava o jogo? Quem eu era querendo fazer mais do que ser mais? Minhas conquistas valem mais que a minha saúde? Quantas crises de ansiedade, por exemplo, eu precisaria ter para entender que meu corpo pedia pausa?
Se hoje eu quero descansar, que eu possa fazer isso sem me cobrar para acompanhar uma sociedade que me ensinou que não se descansa e que isso é coisa de preguiçoso.
Pois que eu mude isso, mesmo que seja para mim mesmo.
Meu hobby hoje é descansar e curtir a preguiça, sim.
E, para deixar isso tudo mais do meu jeitinho, vamos imaginar uma cena em que eu subo no palco e sou um coach reverso. Adoro brincar com a ironia. Vamos comigo. Me deixa criar humor.
Subo no palco portando um tênis do ano, blazer, calça social e regata por dentro. Estou bem apresentável. Barba aparada. Cara de quem descansou e nem precisa de maquiagem para cobrir as olheiras e os poros. Estou bem com minha imagem e feliz em mostrá-la ao público.
Pego o microfone, saúdo a plateia e falo:
— “Olha, vocês pagaram para estar aqui e eu só tenho uma coisa para dizer: sinto muito, mas vocês foram trouxas. Eu não tenho nada para ensinar. Só que vocês precisam aprender a não fazer nada para entender o que vocês de fato querem fazer.
Não adianta me copiar. Não queremos ser cópias.
Mesmo que busquemos sempre entrar em uma matilha e seguir uma tendência, queremos a nossa individualidade.
E só vamos descobrir isso no silêncio.
Por isso, fiquem em silêncio, porra!” - Gritaria para chocar e fazer rir, ainda em cima do palco.
— “E agora nós só vamos dormir. Para quem não consegue, comprimidinhos serão distribuídos. Após meia hora, conversamos de novo com a cabeça mais leve.” - Solto o microfone como um astro do rock.
E, ironicamente, é isso que estou fazendo: jogando esse microfone imaginário, gritando comigo mesmo, rompendo com velhos padrões, aprendendo a descansar e a ter uma cabeça que pode, por vontade própria, colocar-se no travesseiro, fechar os olhos e entregar-se ao nada.
— “Vamos nos entregar ao nada. Foda-se seu nome no Serasa. Foda-se a faxina da casa. Foda-se seu trabalho. Se hoje você está aqui, é porque conseguiu um tempo só para você, então entregue-se a ele e não me dê o poder de usá-lo.
Aprenda a descansar a cabeça para ter um melhor controle sobre os seus próprios pensamentos.
Chega de dar poder ao outro ou até a mim mesmo.
Não seja um corpo cansado. Seja uma mente descansada.”
Esse texto faz parte do Projeto Cadernos Compartilhados da minha amiga Jeniffer Geraldine, onde todo mês, ela propõe um tema para os participantes falarem sobre.
O desse, como você percebeu, foi sobre hobbies.
Leia mais sobre aqui no blog dela: jeniffergeraldine.com
E caso queira ler mais textos meus, consigo listar quatro que conversam com o tema acima:


Arrasou!